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Filme ‘Intervenção’, de Caio Cobra, trata do fracasso da política de segurança do Rio

O longa, que estreia em 15 de novembro, vem sendo aguardado como o grande lançamento do gênero deste ano, no rastro de ‘Cidade de Deus’, de Fernando Meirelles, e ‘Tropa de Elite 1 e 2’, de José Padilha

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2018 | 06h01

RIO – O major Douglas, da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), se prepara para falar com a imprensa. A cara fechada, de poucos amigos, disfarça a adrenalina que ainda corre por seu corpo, após uma operação na comunidade do Morro da Laje, na zonal sul do Rio. A ação terminou em tiroteio, deixando um policial ferido e uma criminosa morta.

LINS8618 - RJ - 17/07/2018 - VISITA / INTEVERNÇÃO / LONGA - CADERNO2 OE - A atriz Bianca Comparato e o ator Thiago Thirré durante gravação do longa "Intervenção", na tarde desta terça-feira, 17, na comunidade Tavares Bastos, no bairro do Catete, na zona sul do Rio. O fime é protagonizado por Bianca Comparato e Marcos Palmeira e conta com roteiro de Rodrigo Pimentel (Tropa de Elite 1 e 2). Produzido pela Media Bridge e dirigido por Caio Cobra, "Interevenção" faz uma fotografia realista do regime da Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) na cidade do Rio de Janeiro. Foto: FABIO MOTTA/ESTADÃO

LINS8618 – RJ – 17/07/2018 – VISITA / INTEVERNÇÃO / LONGA – CADERNO2 OE – A atriz Bianca Comparato e o ator Thiago Thirré durante gravação do longa “Intervenção”, na tarde desta terça-feira, 17, na comunidade Tavares Bastos, no bairro do Catete, na zona sul do Rio. O fime é protagonizado por Bianca Comparato e Marcos Palmeira e conta com roteiro de Rodrigo Pimentel (Tropa de Elite 1 e 2). Produzido pela Media Bridge e dirigido por Caio Cobra, “Interevenção” faz uma fotografia realista do regime da Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) na cidade do Rio de Janeiro. Foto: FABIO MOTTA/ESTADÃO

LINS8436 - RJ - 17/07/2018 - VISITA / INTEVERNÇÃO / LONGA - CADERNO2 OE - O ator Marcos Palmeira durante a gravação do longa "Intervenção", na tarde desta terça-feira, 17, na comunidade Tavares Bastos, no bairro do Catete, na zona sul do Rio. O fime é protagonizado por Bianca Comparato e Marcos Palmeira e conta com roteiro de Rodrigo Pimentel (Tropa de Elite 1 e 2). Produzido pela Media Bridge e dirigido por Caio Cobra, "Interevenção" faz uma fotografia realista do regime da Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) na cidade do Rio de Janeiro. Foto: FABIO MOTTA/ESTADÃO

LINS8436 – RJ – 17/07/2018 – VISITA / INTEVERNÇÃO / LONGA – CADERNO2 OE – O ator Marcos Palmeira durante a gravação do longa “Intervenção”, na tarde desta terça-feira, 17, na comunidade Tavares Bastos, no bairro do Catete, na zona sul do Rio. O fime é protagonizado por Bianca Comparato e Marcos Palmeira e conta com roteiro de Rodrigo Pimentel (Tropa de Elite 1 e 2). Produzido pela Media Bridge e dirigido por Caio Cobra, “Interevenção” faz uma fotografia realista do regime da Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) na cidade do Rio de Janeiro. Foto: FABIO MOTTA/ESTADÃO

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Douglas explica que seus homens foram recebidos a tiros pela mulher e forçados a revidar, tanto assim que um de seus homens foi atingido por um disparo e levado para o hospital em estado grave. Os repórteres insistem em saber detalhes sobre a mulher e não parecem interessados na sorte do militar. Douglas perde a paciência: “Vocês têm noção do que a PM passa aqui o dia inteiro? Por que vocês não me perguntam sobre o policial ferido? Vocês só querem saber de nos acusar, não veem o nosso lado? Vocês não sabem de porra nenhuma”.

A cena bem poderia ser real, daquelas que acontecem todos os dias no Rio, uma cidade cada vez mais violenta, sob intervenção federal na segurança pública. Uma cidade falida, onde o inicialmente aclamado programa das UPPs foi completamente desmantelado, deixando PMs e moradores de favelas completamente reféns de bandidos. Onde PMs são executados rotineiramente e matam com frequência, simulando tiroteios.

Na verdade, no entanto, a cena foi filmada na tarde de terça, na favela de Tavares Bastos, zona sul. Faz parte do longa Intervenção, do diretor Caio Cobra, com roteiro do ex-policial do Batalhão de Operações Especiais (Bope) Rodrigo Pimentel e do jornalista Gustavo de Almeida, ex-assessor da PM. O major Douglas é Marcos Palmeira, com a cabeça raspada e uma farda da polícia. “Ih, perdi a linha com a imprensa”, constatou o ator, rindo.

O filme, que estreia em 15 de novembro, vem sendo aguardado como o grande lançamento do gênero deste ano, no rastro de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, e Tropa de Elite 1 e 2, de José Padilha. Só que retrata um outro momento da violência, mais atual. Entre policiais idealistas e PMs assassinos, defensores de direitos humanos, moradores de comunidade e traficantes, o filme tenta abordar todos os lados dessa complexa questão de forma imparcial. “Acho que o filme gera uma discussão, uma reflexão, não ódio e polarização”, diz a atriz Bianca Comparato, que vive a soldado Larissa.

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Romper estereótipos normalmente relacionados à segurança pública no Rio foi um dos principais objetivos de Caio Cobra, diretor do longa Intervenção, com estreia prevista para 15 de novembro. Para começar, o filme, que trata do desmantelamento das UPPs em favelas da cidade e da volta dos traficantes às comunidades, é estrelado por uma mulher, a soldado Larissa, vivida pela atriz Bianca Comparato.

E Larissa é uma policial idealista. Para surpresa de sua própria família, ela decide fazer concurso para a PM e vai trabalhar numa UPP por acreditar no projeto de pacificação das comunidades. Na derrocada do programa, no entanto, ela se vê desamparada, sem recursos para trabalhar, em meio à violência.

“Acho que o filme desmistifica um pouco o lugar da polícia e traz uma visão feminina da questão, isso me interessou muito”, defende Bianca Comparato. “Essa polícia das UPPs traz a promessa de ser mais humana, embora viva numa cidade em guerra; ela vem pacificar, mas vem com um fuzil.”

Os companheiros de Larissa na UPP do Morro da Laje, comunidade fictícia na zona sul da cidade, são o major Douglas (Marcos Palmeira), um veterano da corporação; o soldado Caio (Rainer Cadete), que também trabalha como youtuber; e o cabo Lobo (Babu Santana), um policial extremamente honesto.

Os roteiristas do filme, Rodrigo Pimentel e Gustavo de Almeida, contam que a ideia de Intervenção surgiu quando eles constataram uma mudança significativa no perfil das pessoas que fizeram concurso para a PM em 2011, no ápice do sucesso do programa das UPPs.

“O filme reflete o momento em que aproximadamente nove mil jovens, entre 20 e poucos anos, entraram para a PM porque acreditavam no modelo das UPPs, do policiamento dentro das comunidades, próximo dos moradores”, contou Pimentel. “Mas essa turma, que fez o concurso em 2011, acabou só entrando mesmo na corporação em 2013, quando o programa já estava dando errado, e virou vítima da situação.”

De acordo com a ONG de direitos humanos Human Rights Watch (HRW), a implementação das UPPs nas comunidades mais violentas surtiu efeito positivo na redução da violência. De 2008 a 2013, o número de homicídios em ações policiais em geral caiu 63%. Nas comunidades com UPPs, o recuo foi de 86%.

Infelizmente, esse projeto começou a fracassar por vários motivos, entre eles o fato de a segunda etapa do programa nunca ter acontecido: após a ocupação, era preciso levar às comunidades os serviços de saneamento, cuidados e saúde. Os serviços de segurança pública não vieram acompanhados dos serviços sociais”, afirmou a diretora do escritório do Brasil da HRW, Maria Laura Canineu.

“Por outro lado, a polícia foi abandonada à própria sorte nas comunidades.”

Entre o fim de 2014 e o início de 2015, o Rio mergulhou em uma profunda crise econômica – época em que não havia sequer combustível para fazer andar os velhos carros da PM. Os recursos começaram a escassear e as diferentes facções do tráfico voltaram a disputar o controle de território dentro das comunidades. Após uma breve pausa para os Jogos Olímpicos, a situação desandou de vez, com policiais sendo executados diariamente.

A intervenção federal na segurança passou, então, a ser vista como a única solução possível para tamanho descalabro.

Rodrigo Pimentel, que também foi roteirista de Tropa de Elite 1 e 2, lembra que frequentemente os policiais são desumanizados pela imprensa e pela sociedade em geral.

Muita gente não consegue enxergar que existe um lado humano do policial sim, um cara que acordou de madrugada, que pegou um trem lotado para ir para o trabalho e teve de esconder a farda para nenhum bandido identificá-lo, que já enterrou dezenas de colegas, que está com o salário atrasado e não tinha o que comer em casa”, enumera o ex-agente do Bope. “O filme tenta mostrar esse outro lado.”

Mas o filme não se limita a relativizar as formas de representação dos policiais. A questão da raça também está presente. O principal bandido do filme, o líder do tráfico na comunidade, Fió, é vivido pelo ator Vitor Thiré, que é ruivo e tem os olhos azuis. E a irmã de Larissa, que é branca, é a defensora de direitos humanos Flávia, vivida pela atriz negra Dandara Mariana. “O mais legal é que elas são irmãs e pronto”, conta Dandara. “Ninguém fica tentando explicar por que uma é negra e a outra é branca.”

ENTREVISTA:

‘Eu ajudei a fabricar a ilusão das UPPs’, diz Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Bope

Responsável pelo roteiro, ele explica o fracasso do programa de pacificação no Rio de Janeiro

Rodrigo Pimentel, de 47 anos, é a grande estrela do filme Intervenção. Ex-PM, ex-capitão do Bope, Pimentel trabalhou como policial entre 1990 e 2001. Foi consultor do documentário Ônibus 174, de José Padilha. Com o sociólogo Luiz Eduardo Soares escreveu Elite da Tropa, sobre o cotidiano no Bope. Voltou a trabalhar com Padilha em Tropa de Elite 1 e 2, já como roteirista, dois filmes de grande sucesso do cinema nacional, e acabou virando comentarista de segurança pública. Nessa entrevista, ele analisa o fracasso das UPPs e a atual situação da violência no Rio. E faz uma mea-culpa: “Eu ajudei a fabricar a ilusão das UPPs”.

Em que momento você começou a perceber essa mudança do perfil dos PMs provocada pelo sucesso do programa das UPPs?

Foi quando morreu o Caio (César Cardoso de Melo, de 27 anos, assassinado por traficantes em 2015). Ele era ator, dublava o Harry Potter nos filmes, mas resolveu que queria ser soldado da PM porque queria trabalhar na UPP. Como ele, foram milhares de jovens jornalistas, advogados, administradores fazendo concurso em 2011 porque acreditaram na polícia. Quando eles finalmente entraram, em 2013/2014, a coisa já estava virando. Eles foram iludidos pelo programa das UPPs. E sei que eu mesmo ajudei a fabricar essa ilusão, como comentarista de segurança.

As UPPs eram um programa considerado tão bom que conseguiram unir em sua defesa desde políticos de esquerda até policiais do Bope. O que deu errado?

Faltaram os projetos de esporte, lazer e cultura (a segunda etapa do projeto que nunca foi implementada), como todo mundo costuma citar. Mas eu digo que faltou antes de mais nada a urbanização das comunidades. O tráfico sobrevive nos becos impenetráveis das favelas. Era preciso fazer uma reforma urbana, em que o patrulhamento pudesse estar presente em todas as vielas.

FONTE :ESTADÃO.

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